Memória afetiva: como construir boas lembranças

para bebês e crianças!

 

 

A árvore de maçãs mágicas

Aos dois anos de idade, meu filho passou a ser bastante seletivo no consumo das frutas. Para tentar melhoras isso, tive uma idéia: disse a ele que me ajudasse a planta uma macieira. A árvore era imaginária, seria plantada na sala de casa e era um “pé de maçã mágica”. Quando cheguei com minha pazinha para cavar (de mentira) no chão da sala, o Gianluca logo veio me ajudar. Cavamos fazendo mímica, colocamos uma semente invisível no buraco e regamos juntos o nosso pé de maçã de faz de contas!

No dia seguinte… pronto! Já estava crescido nosso pé de maçãs imaginário! Então, eu subi em um banquinho - pois o pé era alto - e peguei, lá em cima, a nossa primeira maçã mágica. Eu já havia preparado antes a maçã, cortando-a em fatia bem finas e perfeitas que continuavam juntas, aparentando uma maçã inteira. Mas, era só puxar um pouquinho, que dava para perceber que ela estava fatiada: era uma maçã mágica!

Colhemos esta primeira maçã e meu filho percebeu de cara que ela já vinha prontinha em fatias bem fininhas, que eram deliciosas de saborear, além de práticas. Virou fã de maçã daquele dia em diante.

Hoje, o Gianluca tem 11 anos e come maçãs de qualquer forma, cortadas ou não. Mas… sempre que precisa de um mimo, ofereço uma maçã mágica que cura qualquer mal e o faz sentir-se especial.

 

Compartilho essa história pois acredito que ela representa a importância criarmos essas memórias para as crianças. Situações simples, porém lúdicas, que falam a linguagem da crianças, proporcionam sentimentos que, no futuro, serão eternizadas como memória afetiva.

Um simples gesto, neste caso, foi capaz de influenciar a preferência gustativa do meu filho.

 

Esse texto fala um pouco sobre a importância da memória afetiva e do quanto ela é capaz de contribuir para o desenvolvimento de uma criança.

 

 

O que é a memória afetiva?

 

A memória afetiva é um tesouro invisível que carregamos ao longo de nossas vidas. Ela representa a capacidade de recordar emoções e sentimentos ligados a eventos e experiências do passado, sejam eles alegres, tristes, reconfortantes ou desafiadores. Essa forma especial de memória desempenha um papel fundamental em nossa vida desde os primeiros momentos da infância.

 

Sabe aquele passeio ou viagem que você acha que seu filho não aproveitou pois era muito pequeno? Ele aproveitou sim! Muito além do que você imagina. Ele captou momentos de felicidade em família, viu cores e paisagens novas, sentiu aromas diferentes, ouviu sons interessantes… enfim, toda essa experiência sensorial é muito importante no desenvolvimento do cérebro do bebê e da criança.

 

De acordo com a teoria de Daniel Schacter, psicólogo especializado em memória, existem diferentes tipos de memória, e a memória afetiva se encaixa no contexto da memória episódica. A memória episódica é a capacidade de recordar eventos específicos e a emoção que os acompanha. Na infância, este tipo de memória desempenha um papel crucial, pois é o período em que são constituídas as bases da memória episódica, daí a importância daquele momento único que você proporcionou para seu filho, mesmo que ele ainda não ande, não fale ou não se expresse muito bem.

 

 

 

A primeira infância e as experiências positivas

 

Durante a primeira infância, que vai do nascimento até os 6 anos de idade, as crianças estão extremamente receptivas às experiências sensoriais e são altamente influenciadas pelo ambiente ao seu redor. Tudo o que acontece nesse período de vida pode moldar suas memórias afetivas e, consequentemente, sua saúde emocional e mental ao longo da vida.

Por meio destas memórias as crianças aprendem sobre limites, preferências, sentimentos e emoções.

“O período com maior neuroplasticidade cerebral são os primeiros anos de vida. Ter uma vivência positiva e prazerosa ao lado do seu filho, manter conexão olho no olho e estimular um sorriso, por exemplo, são estímulos capazes de gerar e aumentar as sinapses e conexões neurais, contribuindo para o neurodesenvolvimento da criança”, afirma Juliana Certain Dreyfuss, Neuropsicóloga e Diretora da Clínica Grupo Can.

É por isso que alguns cheiros, sons, formas, lugares e pessoas trazem à tona lembranças e sensações, mesmo na vida adulta.

 

 

Não se trata de coisa material, mas sim de dedicação e cuidado

Nós, mães, pais e cuidadores, temos a forte responsabilidade de educar e fazer as melhores escolhas para o desenvolvimento de nossos filhos.

Hoje, diante da avalanche de opções e informações disponíveis, a tendência tem sido oferecer aos pequenos cada vez mais atividades ou cursos que ocupam o dia a dia fora da escola. Com a agenda lotada, percebemos que tem faltado tempo para aquilo que é essencial: momentos junto com a família, interação olho no olho sem telas ou interferências, conversas mais longas, brincadeiras simples como desenhar ou um jogar, ouvir músicas, contar histórias…. Enfim, aqueles momentos simples que justamente são os mais importantes e valiosos e que, lá no futuro, aparecem como memórias afetivas.

Em resumo, falta o tão falado tempo de qualidade com as crianças.

É nestes momentos que conseguimos passar nosso legado para as crianças. Através de uma brincadeira por exemplo, conseguimos dar exemplos de comportamento. Através de contação de histórias, podemos expor nossas opiniões, mostrar nossas características e até dar “recadinhos” que ficariam chatos quando ditos no dia a dia… Como por exemplo, se quero ensinar meu filho sobre uma boa alimentação, posso contar-lhe uma história na qual a personagem sente-se muito disposta e feliz quando come os legumes verdes! Aliás, eu adoro usar esse recurso e sou a maior criadora de histórias absurdas, cheias de recadinhos. Às vezes, minha filha do meio me pede para repetir uma das histórias que contei semana passada: aí fica difícil! Muitas vezes ela mesma se lembra mais da história do que eu, então vira uma história contada a dois: melhor ainda!

Tradições familiares também são experiências importantes para compartilharmos. Estas já vêm com uma enorme bagagem emocional e é um prato cheio para criar lindas memórias. Um passeio simples no bairro ou cidade em que nasceram nossos avós, uma receita típica da família, um jogo de baralho tradicional, uma música que era tradição ouvir no Natal… é muito enriquecedor podermos passar tudo isso aos nossos filhos.

Por tudo isso, seu tempo, dedicação e cuidado, valem a pena!

 

 

Como construir memórias afetivas

 

Para criança, brincadeira é coisa séria! Então use essa ferramenta para criar boas memórias do dia a dia com seu filho.

Não precisa ser um dia especial, veja algumas ideias de como inserir atitudes positivas na sua rotina:

Hora da refeição: ofereça algo diferente! SE você sempre serve a comida em uma mesa da sala, por exemplo, experiente fazer uma surpresa para almoçar na cozinha, ou no quintal. Se costuma usar pratos, sirva em tigelas. Mudanças simples com essas, geram momentos felizes e ensinam de um modo afetivo que podemos fazer as mesmas coisas de maneiras diferentes - um baita treino legal para os pequenos mais metódicos!

 

Hora do lanche: Mande bilhetes na lancheira! Você vai se surpreender em como seu filho ficará contente em ter um recadinho seu neste momento em que ele está longe de casa. Capriche na aparência do lanche. Cortar o pão em algum formato especial, por exemplo, pode tornar o lanche até mais gostoso. Envie maçãs mágicas!

 

Hora de se vestir: a partir de 18 meses de idade é muito interessante começar a dar um pouco de autonomia para a criança no momento de se vestir. Gere opções de escolha controladas para que seu bebê ou criança possa expressar sua vontade e exercitar sua autonomia de forma lúdica. Uma ideia: separe 2 opções de camisetas para que seu pequeno escolha qual estampa vai usar naquele dia: “Que tal? Hoje vamos de estampa cajú ou barcos?” Mostre a ele diferentes tipos de tecidos, explore a questão tátil! Na Timirim, por exemplo, oferecemos a melhor experiência de toque e maciez, pois utilizamos o algodão pima orgânico, que é extremamente gentil com a pele do bebê e da criança.

 

Ir ao mercado: uma simples ida ao mercado ou à feira pode ser uma experiência enriquecedora. Mostre a lista de compras para seu filho e peça a sua ajuda para encontrar os alimentos. O melhor setor é o de hortifruti pois é supercolorido e saudável! É muito legal poder exercitar a autonomia deles, pois essa confiança conferida do adulto para a criança, gera muitos sentimentos de segurança que contribui para seu crescimento. Além disso, não tem criança que não AME empurrar um carrinho mini de mercado, ou até mesmo andar naquelas cadeirinhas do carrinho de compras.

 

Escolher um presente para um amigo ou familiar: Coloque seu filho junto nesta missão e o presente será muito mais especial. Você pode fazer um passeio com a intenção de achar o presente perfeito para alguém especial, você pode pedir ajuda para criar um presente “hand-made” ou até para fazer a arte do cartão, o que é muito divertido. Se um bebê vai nascer, envolva seus filhos mais velhos na escolha do presente ou do enxoval! Essa memória ele guardará por uma vida!

 

Hora do Banho Sensorial: Transforme a hora do banho em uma experiência sensorial. Use sabonetes suaves e brinquedos flutuantes coloridos para estimular os sentidos do bebê. Para os mais velhos, é bem legal um banho de espuma e giz de banho para brincar. Música, antes, durante e depois também é uma ótima ideia. Após o banho, faça uma massagem suave usando um óleo de bebê suave, como o óleo de massagem Mustela por exemplo. Isso não apenas relaxa, mas também cria conexão afetiva.

 

Cozinhar em Família: Envolver as crianças na preparação de refeições simples é uma ótima maneira de criar memórias afetivas. Fazer uma receita tradicional de família ou apenas oferecer pequenas tarefas da rotina tais como untar uma forma, decorar um bolo, organizar as panelas embaixo da pia, podem ser momentos divertidos e produtivos em família.

 

Música e Movimento: Para os bebês: Brinque com ele ao som de músicas suaves. Toque instrumentos musicais simples, cante e dance enquanto o bebê sente a música em um ambiente confortável. É muito legal poder narrar para seu bebê, através de uma música, a importância de algo que ele está fazendo. Invente pequenas frases ritmadas que falem, por exemplo, como é importante escovar os dentes ou como é gostoso sentir um soninho e ir relaxando o corpinho…. Veja como o bebê responde muito bem a esses pequenos atos musicais.

Planeje um dia na semana para estar com seu bebê em uma aula de musicalização. A interação com o bebê através da música é maravilhosa e, além de passarem um tempo juntos, você proporcionará muitos benefícios para o desenvolvimento dele.

Para os mais velhos: Música é vida. Insira a rotina musical desde pequeno. Através da música eles podem expressar-se e extravasar seus sentimentos. É muito bom cantar uma música bem alto quando se está feliz! É ótimo poder contar com uma música mais calma para os momentos de reflexão ou de tristeza.

 

 

Celebre conquistas: Comemore e reconheça as realizações de seus filhos, por menores que sejam. Esse pequeno gesto positivo reforça a autoestima e cria memórias felizes.

 

Esteja presente nos momentos difíceis: Um momento difícil para um bebê pode ser algo bem simples, como não conseguir expressar-se e então ele começa a chorar sem controle. Esteja lá para ele. Fale as palavras que ele precisa ouvir, fale que você está junto com ele e que sabe o quanto está sentindo-se mal. Apoie e console seus filhos quando eles enfrentarem desafios. Essas experiências de apoio e conforto são importantes e fundamentais para a construção de memórias afetivas positivas.

 

 

Por Aline Barone, mãe ao cubo3

 

 

 

 

 

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